Dia de Proteção às Florestas alerta para impacto do desmatamento no tratamento de água

Perda de vegetação próxima a rios e mananciais favorece erosão, assoreamento e aumento da turbidez, exigindo maior controle operacional nas estações de tratamento

Celebrado em 17 de julho, o Dia de Proteção às Florestas também chama a atenção para uma relação que nem sempre é percebida pela população: a conservação da vegetação interfere diretamente na qualidade da água que abastece cidades, propriedades rurais e instalações industriais.

A retirada de árvores e plantas próximas a rios, nascentes e reservatórios deixa o solo mais exposto à ação da chuva. Com isso, partículas de terra, matéria orgânica, nutrientes e diferentes contaminantes podem ser carregados pelo escoamento superficial até os corpos d’água. O resultado tende a ser uma água bruta mais turva e com maior concentração de sólidos suspensos.

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico informa que o aumento da turbidez pode exigir maior utilização de produtos químicos, como coagulantes, nas estações de tratamento, elevando os custos do processo. A turbidez também pode afetar organismos aquáticos, atividades recreativas e usos industriais da água.

Vegetação funciona como proteção natural dos mananciais

As matas ciliares, localizadas nas margens de rios, córregos e nascentes, ajudam a estabilizar o solo e a reduzir o transporte de sedimentos. A cobertura vegetal funciona como uma barreira física, diminuindo a velocidade do escoamento da água da chuva e retendo parte dos materiais que poderiam chegar aos mananciais.

Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo, a degradação das matas ciliares afeta o ciclo da água e deixa os rios mais vulneráveis ao assoreamento. A conservação dos cursos d’água, portanto, depende não apenas do controle de despejos, mas também da proteção das áreas ao redor.

Estudos desenvolvidos pela Embrapa também avaliam a relação entre o uso do solo, o escoamento superficial e a quantidade de sedimentos transportada para as bacias hidrográficas. Mudanças na cobertura da terra podem alterar tanto a produção de água quanto o fluxo de partículas que chegam aos rios.

Quando a vegetação é removida, o manancial fica mais sujeito a oscilações bruscas de qualidade, principalmente durante períodos de chuva intensa. A estação precisa identificar essas mudanças rapidamente para ajustar as etapas de coagulação, floculação, decantação e filtração.

Água mais turva exige ajustes no tratamento

A turbidez é um indicador da presença de partículas suspensas na água. Embora nem toda água turva esteja necessariamente contaminada por microrganismos, níveis elevados podem dificultar etapas do tratamento e reduzir a eficiência da desinfecção.

A Organização Mundial da Saúde considera o monitoramento da turbidez uma ferramenta importante para avaliar riscos ao longo de toda a cadeia de abastecimento, desde a área de captação até o ponto de consumo. O indicador permite acompanhar alterações na água de forma relativamente rápida e contínua.

Em estações de tratamento, produtos coagulantes são aplicados para favorecer a aglomeração das partículas presentes na água, permitindo que sejam removidas nas fases seguintes. Entre as alternativas utilizadas está o policloreto de alumínio 10, cuja dosagem precisa ser definida de acordo com características como turbidez, cor, pH, alcalinidade e quantidade de matéria orgânica presente na água captada.

Preservação pode reduzir riscos e custos operacionais

A proteção das florestas e das áreas próximas aos mananciais deve ser considerada parte da estratégia de segurança hídrica. Investimentos em recuperação de matas ciliares, controle da erosão, conservação do solo e monitoramento das bacias podem reduzir a entrada de sedimentos e contaminantes na água.

A preservação não elimina a necessidade de tratamento, mas pode melhorar a qualidade da água bruta e reduzir variações que tornam a operação mais complexa. Para empresas de saneamento e indústrias, esse cuidado pode representar maior previsibilidade, menor sobrecarga dos filtros, redução da geração de lodo e uso mais racional de insumos químicos. Por Stefani Quaresma da Hedgehogdigital