Ondas de calor e chuvas concentradas em poucas horas pressionam sistemas de ar-condicionado, redes de águas pluviais, impermeabilização e materiais e obrigam construção civil a rever parâmetros utilizados durante décadas
A mudança do clima começa a produzir um efeito que vai muito além do conforto térmico nas cidades. Ela está alterando premissas técnicas utilizadas para projetar e executar edifícios.
Sistemas de climatização dimensionados a partir de determinadas condições de temperatura, redes de águas pluviais projetadas para determinados volumes de precipitação e materiais escolhidos considerando padrões históricos de exposição ao calor e à umidade passam a enfrentar condições diferentes daquelas previstas originalmente.
O desafio tende a crescer.
Em maio de 2026, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, divulgou uma nota técnica mostrando aumento contínuo da frequência das ondas de calor no Brasil nas últimas quatro décadas, com intensificação em todos os estados desde o início dos anos 2000. Historicamente, o país registra, em média, entre 8 e 14 ondas de calor por ano, dependendo do critério e da região analisada.
O ano de 2025 também trouxe exemplos da intensidade dos extremos. Segundo o relatório anual do Cemaden, o país registrou sete ondas de calor. Em Quaraí, no Rio Grande do Sul, a temperatura chegou a 43,8°C. No Rio de Janeiro, as máximas ficaram entre 42°C e 44°C em alguns episódios, enquanto São Paulo atingiu 37,2°C em dezembro, recorde para o mês em 64 anos.
No cenário global, a Organização Meteorológica Mundial confirmou que 2025 ficou entre os três anos mais quentes já registrados e que os últimos 11 anos foram, sucessivamente, os 11 mais quentes da série histórica.
Para Celso Zaffarani, arquiteto e fundador da Zaffarani Design Build, empresa especializada em gestão e execução de obras comerciais, corporativas, hoteleiras e de varejo, esses números têm uma consequência concreta para a construção civil.
“Quando muda a condição climática para a qual um edifício foi concebido, precisamos começar a discutir se os parâmetros utilizados para dimensioná-lo continuam suficientes. Não é apenas uma discussão ambiental. É uma questão de desempenho da construção”, afirma.
O calor muda a conta do ar-condicionado
Uma das consequências mais evidentes aparece nos sistemas de climatização.
O dimensionamento do ar-condicionado considera uma série de variáveis, como temperatura externa, orientação solar, características das fachadas, ocupação, equipamentos instalados e carga térmica esperada para os ambientes.
Com temperaturas externas mais elevadas e ondas de calor mais frequentes e prolongadas, edifícios podem enfrentar cargas térmicas superiores às consideradas durante sua concepção.
“Não é simplesmente colocar um aparelho de ar-condicionado maior. Precisamos rever a carga térmica do edifício como um todo. Fachada, vidro, isolamento, incidência solar, cobertura, equipamentos e climatização fazem parte da mesma equação”, explica Zaffarani.
O tema também possui impacto econômico.
A Agência Internacional de Energia estima que, sem avanços adicionais em eficiência, o consumo de energia destinado à refrigeração de ambientes poderá mais do que dobrar até 2050. Em projeções anteriores, a agência mostrou que a demanda associada aos aparelhos de ar-condicionado poderia chegar a triplicar caso não houvesse melhorias significativas de eficiência.
Isso significa que simplesmente responder ao aumento do calor com equipamentos de climatização mais potentes pode gerar um segundo problema: consumo maior de energia e aumento do custo operacional durante toda a vida útil do empreendimento.
Para Celso, o desafio está justamente em trabalhar as duas pontas.
“Precisamos dimensionar sistemas preparados para temperaturas mais severas, mas, ao mesmo tempo, desenvolver edifícios que exijam menos desses sistemas. Quanto melhor o desempenho térmico da construção, menor a necessidade de compensar tudo mecanicamente.”
Quando a chuva de um mês cai em poucas horas
Se o calor pressiona a climatização, os novos padrões de precipitação criam outro desafio técnico: o escoamento da água.
O problema não está necessariamente apenas no volume total de chuva acumulado ao longo de um mês. O que preocupa projetistas e construtores é a concentração de grandes volumes em intervalos muito menores de tempo.
Em 2025, por exemplo, Teresópolis, no Rio de Janeiro, acumulou 689,4 milímetros de chuva em abril, volume 548% superior à média histórica do mês. O Cemaden também aponta tendência crescente de eventos de chuva intensa e identifica as precipitações extremas como importantes gatilhos de inundações, enxurradas e movimentos de massa.
Para os edifícios, isso coloca sob pressão calhas, ralos, condutores verticais, tubulações e redes responsáveis pela captação e pelo escoamento das águas pluviais.
“Quando um volume muito grande de água chega em poucos minutos ou poucas horas, a capacidade de escoamento passa a ser crítica. Precisamos discutir se as bitolas das redes de águas pluviais e os sistemas previstos para os edifícios respondem adequadamente a esses novos índices de precipitação”, afirma Zaffarani.
Segundo o arquiteto, trata-se de uma discussão especialmente relevante para novos empreendimentos.
“A construção que começamos hoje será utilizada durante 30, 40 ou 50 anos. Não podemos dimensionar tudo apenas olhando pelo retrovisor. Os dados históricos continuam importantes, mas precisamos incorporar a possibilidade de eventos mais severos durante a vida útil daquele edifício.”
Uma tubulação aparentemente simples pode virar um problema milionário
O dimensionamento inadequado das redes pluviais pode produzir consequências que se espalham por diferentes partes de uma construção.
Quando o sistema não consegue receber e escoar o volume de água, aumentam os riscos de transbordamentos, infiltrações, comprometimento de áreas técnicas, danos a acabamentos e interrupções na operação.
Em hotéis, lojas, hospitais ou escritórios, o impacto pode ultrapassar o custo do reparo.
“Em um empreendimento em operação, uma falha não custa apenas o valor da manutenção. Pode significar quarto indisponível, loja fechada, área corporativa interditada ou equipamento comprometido. É por isso que precisamos olhar para o custo ao longo da vida útil e não somente para o investimento inicial da obra”, observa Celso.
Materiais também estão sendo submetidos a condições mais severas
A mudança climática também interfere na escolha dos materiais.
Fachadas, coberturas, impermeabilizações, selantes, revestimentos e demais componentes externos ficam sujeitos a ciclos mais intensos de aquecimento, resfriamento, radiação solar, vento e umidade.
Com isso, especificação, instalação e manutenção ganham maior importância.
“Um material que funciona muito bem em determinada condição pode ter comportamento diferente quando é exposto repetidamente a extremos. Isso não significa que todos os produtos precisam ser substituídos, mas que precisamos especificar pensando no desempenho real e na exposição que aquele edifício terá”, afirma.
O custo inicial deixa de ser a única conta
A discussão muda também a forma de avaliar economicamente uma obra.
Escolher uma solução apenas porque apresenta menor custo de implantação pode resultar em despesas maiores de energia, manutenção ou substituição no futuro.
É o conceito de custo do ciclo de vida: analisar quanto o edifício exigirá para continuar funcionando adequadamente depois de entregue.
“Às vezes, uma diferença relativamente pequena no investimento inicial evita uma manutenção recorrente durante décadas. Construção eficiente não é necessariamente a obra mais barata no momento da compra. É aquela que entrega o melhor desempenho ao longo do tempo”, diz Celso.
Hotéis, lojas e escritórios sentem o problema de maneira diferente
O tema ganha relevância especial nas obras comerciais e corporativas porque o desempenho do edifício está diretamente ligado ao negócio que funciona dentro dele.
Em um hotel, falhas na climatização atingem imediatamente a experiência do hóspede. Em uma loja, uma infiltração pode exigir fechamento temporário. Em um escritório, problemas térmicos afetam conforto e utilização dos ambientes.
Para Celso, isso faz com que decisões tradicionalmente vistas como exclusivamente técnicas cheguem cada vez mais à mesa do investidor.
“Climatização, drenagem, impermeabilização e eficiência não são detalhes escondidos dentro do projeto. Eles interferem diretamente na operação e no retorno daquele ativo.”
Construir para o histórico já não basta
As transformações climáticas não significam que todo edifício existente esteja inadequado nem que haja uma solução única para os novos projetos. Elas indicam, porém, que o setor precisa incorporar novas perguntas à fase de planejamento.
Qual será a carga térmica do edifício em uma onda de calor mais severa? A climatização possui capacidade e eficiência adequadas? Quanto de água a rede pluvial consegue receber em um intervalo curto? Os materiais especificados suportam as condições de exposição previstas durante décadas?
Para Zaffarani, essas perguntas devem se tornar cada vez mais comuns.
“Durante muito tempo, a pergunta central era quanto custa construir e em quanto tempo conseguimos entregar. Essas perguntas continuam fundamentais. Mas precisamos acrescentar uma terceira: como esse edifício vai se comportar daqui a 30 ou 40 anos?”
E é justamente aí que sustentabilidade, engenharia e resultado financeiro começam a falar a mesma língua.
“Preparar uma construção para um clima mais extremo não é prever exatamente o que vai acontecer daqui a décadas. É criar margem de segurança, eficiência e capacidade de adaptação. O papel da construção civil é antecipar o problema antes que ele apareça dentro do edifício.”
Cinco pontos do edifício que entram na discussão com o novo clima
- Climatização
Temperaturas externas mais altas podem aumentar a carga térmica dos ambientes e exigir revisão dos critérios utilizados para dimensionar sistemas de ar-condicionado. - Redes de águas pluviais
Chuvas concentradas em períodos curtos aumentam a vazão que precisa ser recebida por calhas, condutores, tubulações e demais componentes de drenagem. - Impermeabilização
Maior exposição a episódios severos de chuva aumenta a importância de projeto, execução e manutenção adequados dos sistemas de impermeabilização. - Materiais e fachadas
Calor, radiação, umidade e variações térmicas mais intensas exigem maior atenção ao desempenho e à durabilidade dos materiais especificados. - Consumo de energia
Resolver o aumento da temperatura apenas com maior capacidade de climatização pode elevar significativamente o custo operacional. Eficiência térmica e eficiência dos equipamentos precisam caminhar juntas. Por Karina Leite assessora da Baronesa Comunicação Corporativa
